O valor do que não acontece

Ninguém é insubstituível. Essa é uma máxima quase inquestionável, que hoje ouso flexibilizar.

No ambiente corporativo, ela é bastante difundida e constantemente repetida, porque é sempre bom lembrar que empresas continuam existindo após aposentadorias, demissões, desligamentos e mudanças de gestão. A operação segue. Novas pessoas chegam. A estrutura se acomoda e se reorganiza.

Algumas ausências, no entanto, parecem produzir efeitos desproporcionais e ser mais sentidas do que outras, quase provando por A + B que há quem seja insubstituível, sim.

Destaco aqui aqueles profissionais cuja presença produz pouco ou quase nenhum ruído, cuja importância raramente aparece nos relatórios de desempenho, mas se revela rapidamente quando precisam se afastar: o gestor que conecta áreas sem alarde; o colaborador que conhece os detalhes e detém a memória da operação; a pessoa que resolve conflitos antes que eles cresçam. Aqueles que preservam relacionamentos, compartilham contexto e impedem que pequenos problemas se transformem em grandes crises.

Enquanto presentes, tudo parece funcionar. As informações existem, os processos acontecem e as pessoas sabem para quem perguntar. Enquanto estão lá, ninguém percebe quantas decisões passam por eles, quantos conflitos eles resolvem, quantos problemas eles impedem que cresçam e cheguem adiante.

Por isso, muitas vezes, seu valor passa despercebido. Afinal, é difícil notar aquilo que funciona ou medir aquilo que não aconteceu. Ninguém elogia diariamente a ponte que se mantém de pé, mas todo mundo vê quando ela cai.

Quando a operação segue redonda, não aparece no indicador o conflito que foi evitado, a negociação que não se deteriorou, a paralisação que não ocorreu ou a decisão equivocada que deixou de ser tomada porque alguém percebeu o risco a tempo.

Mas algumas organizações só descobrem que a ponte, senão caiu, poderá cair a qualquer momento, quando esses profissionais saem de cena. Ou quando adoecem. Ou quando tiram férias. Ou quando, por qualquer razão, deixam de estar permanentemente disponíveis.

É aí que surge uma contradição interessante: embora ninguém seja insubstituível, algumas pessoas simplesmente não podem se ausentar. Não podem desligar o celular nas férias. Não podem perder um familiar. Não podem descansar sem que parte da operação sinta imediatamente sua falta.

Embora isso revele uma falha da organização em transformar conhecimento individual em estrutura, passando a depender de pessoas, quando deveria depender de processos, o silêncio de um trabalho eficiente leva à crença de que ele é dispensável – até o dia em que ele desaparece.

Enquanto tudo funciona, não há conflito, não há paralisação, não há crise. E, aparentemente, não há também percepção de valor. Porque o que gera receita, reduz custos ou aumenta produtividade tem valor mensurável e visível em relatórios. Já o valor do que mitiga riscos, preserva relacionamentos e evita perdas futuras só aparece na ausência dos problemas que nunca chegaram a acontecer.

Não posso afirmar que a maturidade de uma empresa pode ser medida pela sua capacidade de resolver problemas quando estes surgem. Mas, certamente, um dos seus indicadores está na capacidade de reconhecer valor antes da perda, de identificar e preservar pessoas, processos e mecanismos que silenciosamente impedem que tais problemas aconteçam.

Ninguém é insubstituível, como se sabe. Mas algumas ausências nos obrigam a admitir que perdemos tempo demais sem perceber o valor de determinadas presenças.

O que acreditamos ter combinado

Existe um momento comum a quase toda negociação bem-sucedida: aquele em que todos se levantam da mesa satisfeitos. Um entusiasmo generalizado se propaga rapidamente. Os sorrisos e os apertos de mão são sinceros. As últimas divergências parecem superadas e a sensação geral é a de que o acordo, finalmente, foi alcançado.

Das maiores ilusões que já presenciei no mundo dos negócios, acreditar que esse instante é o momento em que os problemas terminam talvez seja a maior. Muitas vezes, é exatamente ali que eles começam.

Há alguns anos, ouvi de um executivo uma observação que nunca esqueci. Ao notar meu entusiasmo ao final de uma reunião, ele afirmou categoricamente que as reuniões de alta gestão costumam ser extremamente agradáveis. Reúnem pessoas inteligentes, experientes, bem-preparadas, dotadas de traquejo social e excelentes habilidades de negociação. O ambiente é cordial. As conversas fluem. As decisões avançam, mas os problemas normalmente surgem quando todos se despedem e voltam para suas mesas.

Na época, achei a observação curiosa. Hoje, acho que ela descreve com precisão uma das principais fontes de conflito nas relações empresariais: a crença perigosa de que o que foi negociado entre sorrisos habilidosos foi o que restou protegido no contrato.

Às vezes, duas pessoas participam da mesma reunião, ouvem as mesmas palavras, discutem as mesmas cláusulas e saem dali absolutamente convencidas de que entenderam a mesma coisa. Meses depois, descobrem que não. Ninguém agiu de má-fé. Ninguém mentiu. Ninguém tentou enganar ninguém, mas cada um levou para casa uma interpretação diferente daquilo que acreditou ter combinado.

Talvez por isso ainda haja quem se surpreenda quando surge um conflito após a formalização de um contrato. Se o documento foi discutido, negociado, revisado e assinado, como ainda poderia dar errado?

A verdade é que contratos não são escritos apenas com palavras, mas também e sobretudo com expectativas. E expectativas possuem o péssimo hábito de permanecer invisíveis enquanto todos parecem concordar.

O problema aparece mesmo quando surge a primeira situação concreta que exige interpretação. É aí que as pessoas descobrem que passaram meses acreditando ter entendido a mesma coisa e assinado o mesmo acordo.

Registrar aquilo sobre o qual as partes concordam é fundamental nos contratos, mas, mais importante que isso talvez seja revelar neles aquilo sobre o qual as partes ainda não perceberam que discordam. Porque, ao contrário do que se difunde por aí, prevenção não consiste apenas em formalizar o óbvio por escrito. Prevenção jurídica consiste, especialmente, em fazer perguntas incômodas enquanto ainda existe tempo para respondê-las. Antes dos sorrisos satisfeitos, do contentamento efusivo, antes que todos voltem para suas mesas acreditando que assinaram o mesmo contrato.

Ter razão nem sempre é suficiente.

O caso Henry Borel voltou aos noticiários e, como costuma acontecer em casos de grande repercussão, milhares de pessoas passaram a discutir se a decisão judicial foi justa ou injusta. Tenho minha opinião, mas não pretendo compartilhá-la aqui. O que me traz aqui hoje é outra coisa.

A quantidade de pessoas chocadas e frustradas com a sentença do caso revela, a meu ver, o quanto ainda se acredita ser o Direito um tipo de calculadora em que basta inserir os fatos para obter a resposta correta. Como se a sua aplicação funcionasse como uma operação matemática, em que fatos evidentes conduzem inevitavelmente a resultados evidentes. Não funciona assim.

O Direito não é óbvio, não é simples, não é preto ou branco. Quando um problema chega ao Judiciário, o resultado deixa de depender apenas daquilo que aconteceu e passa a depender também daquilo que será possível provar, argumentar, interpretar e, principalmente, convencer. E isso ainda surpreende muita gente, como se vê.

No ambiente empresarial, por exemplo, ainda é comum encontrar quem enxergue contratos, acordos societários e estruturas preventivas como custos dispensáveis. Afinal, se surgir um problema, sempre será possível recorrer ao Judiciário. Mas recorrer ao Judiciário significa, em alguma medida, renunciar ao controle. Significa entregar a terceiros a interpretação de fatos, documentos, condutas e intenções que muitas vezes levaram um tempo considerável para se formar – e é aqui onde reside uma das maiores ilusões do mundo dos negócios.

Muitos empresários acreditam que, diante de um descumprimento contratual ou de um conflito relevante, o juiz simplesmente aplicará a lei e restabelecerá a ordem das coisas, considerando a sua própria perspectiva que lhe parece evidente. A realidade é mais complexa.

A pessoa que julgará aquele caso não participou da negociação. Não conhece a história da empresa. Não assumiu os riscos daquele empreendimento. Não precisou decidir entre investir, contratar, expandir, recuar ou encerrar uma operação. Não sentiu o peso financeiro, emocional e patrimonial das escolhas feitas até ali.

Ainda que extremamente preparada, ela terá acesso apenas a uma representação tardia da realidade: documentos, depoimentos, provas e narrativas produzidos anos depois dos fatos. E, por melhor que seja sua formação jurídica, conhecer o Direito não significa conhecer o negócio construído pelas partes, os riscos assumidos ao longo do caminho ou o valor estratégico que cada decisão possuía quando foi tomada.

O Judiciário existe justamente para solucionar conflitos entre pessoas que já não conseguiram resolvê-los sozinhas. Mas isso não elimina uma verdade desconfortável: quem decidirá o que é juridicamente relevante para o caso será alguém que conhece seu negócio muito menos do que você. Alguém cuja formação foi direcionada ao estudo do Direito, não à construção da empresa que você levou anos para erguer. Alguém que precisará reconstruir, a partir de recortes, uma realidade que você viveu integralmente, e em cima desses fragmentos, formar livremente o seu convencimento.

Não, o juiz não pode decidir exclusivamente baseado em seus desejos, crenças e sentimentos. Sua atuação é vinculada ao ordenamento jurídico e este conjunto legal exige interpretação para ser aplicado. E é bem aqui que o Poder Judiciário deixa de ser uma instituição idealizada e se materializa em uma pessoa, com formação técnico-jurídica, mas também com experiência pessoal, valores, visão de mundo, origem social e opinião política.

É por isso que muitos empresários acreditam que possuem um direito, mas poucos percebem que, quando precisam pedir a um juiz que o reconheça, já perderam uma parte importante dele: o controle sobre o resultado. Porque prevenção jurídica nunca foi apenas uma tentativa de evitar litígios ou custos processuais. Ela é, sobretudo, uma tentativa de reduzir incertezas. De diminuir a quantidade de variáveis entregues ao tempo, à memória das testemunhas, à qualidade das provas, à interpretação dos fatos e ao convencimento de terceiros – estes últimos humana e geralmente impactados pela subjetividade de vieses cognitivos inconscientes.

A economia de R$ 2 mil que custou R$ 200 mil.

O negócio parecia excelente. Para economizar cerca de R$ 2 mil em honorários advocatícios, um empresário decidiu não contratar um advogado para elaborar o contrato de compra e venda de um terreno destinado a uma futura incorporação imobiliária. Ele conhecia o vendedor, havia confiança entre as partes e sempre existe uma minuta pronta e gratuita na internet para situações como essa.

Meses depois, descobriu que o terreno não comportava o projeto que pretendia desenvolver. A solução parecia simples: rescindir o contrato, desfazer o negócio e recuperar o sinal pago. Mas havia um problema: o contrato assinado não previa aquilo que deveria ter previsto. O resultado foi a necessidade de desembolsar aproximadamente R$ 200 mil para quitar a obrigação assumida antes de conseguir revender o imóvel e encerrar a operação.

Não foi o único caso parecido que vi ao longo da carreira.

A recorrência de casos como esse costuma decorrer de uma crença muito difundida no ambiente empresarial: a de que prevenção jurídica é custo – e desnecessário. Estranhamente, essa percepção costuma desaparecer após o surgimento do problema.

Na prática, empresários raramente deixam de contratar proteção porque desconhecem os riscos que envolvem seus negócios. Ao contrário. Deixam de contratar porque acreditam que tais riscos se materializarão com outras pessoas, outras empresas, outros negócios – nunca com os seus.

A confiança parece suficiente. A boa relação parece suficiente. A experiência parece suficiente. Até que deixem de ser.

É interessante observar que quase ninguém se arrepende do valor investido para evitar um problema que nunca aconteceu, mas muitos se arrependem do valor economizado quando descobrem o preço real de um problema que poderia ter sido evitado.

Talvez porque os riscos mais caros não sejam aqueles que conhecemos. São aqueles que acreditamos não existir. E é justamente por isso que contratos nunca foram apenas um aperto de mãos. São instrumentos para lidar com situações em que a confiança, a boa vontade, a proximidade e a boa conversa deixam de ser suficientes.

O prejuízo raramente começa no Judiciário

Há quem ainda enxergue contrato como mera burocracia. Um documento necessário apenas para “formalizar” o que foi combinado.

O problema é que a operação não funciona com base em alinhamentos subjetivos, mas com responsabilidades definidas, riscos distribuídos e previsibilidade mínima. Infelizmente, isso costuma ficar evidente tarde demais.

Fornecedor que interrompe entrega no meio de uma demanda crítica. Prestador que descumpre prazo sem consequência prática prevista. Cliente que altera escopo continuamente enquanto a equipe absorve custo, desgaste e atraso operacional. Parcerias construídas na confiança, que não se sustentam em mecanismos reais de proteção quando o cenário muda.

Quase nunca o prejuízo começa no Judiciário. Ele começa bem antes: na desorganização da operação, na perda de tempo gerencial, na dificuldade de cobrar, na insegurança para decidir, na margem financeira que se corrói silenciosamente.

Não se trata de simples formalização de um aperto de mãos. Contrato serve, principalmente, para evitar: (i) que a empresa opere no improviso quando o problema inevitavelmente surgir, (ii) que ela se distancie da finalidade do negócio e (iii) que sua autonomia se perca sob o jugo de um terceiro desinteressado.

Empresas maduras entendem que contratos bem estruturados não refletem apenas um objeto, seu preço e sua forma de pagamento. Protegem direitos. Mas, também e especialmente, protegem fluxo operacional, continuidade, prazo, caixa e capacidade de crescimento sustentável.

Prevenção raramente chama atenção no curto prazo. Basta uma falha relevante, no entanto, para que a sua ausência custe muito mais do que teria custado construí-la corretamente.

A INCULTURA DO CANCELAMENTO

Originariamente, a tal “cultura do cancelamento” não parece um fenômeno cultural. Não reflete a evolução dos costumes, das tradições, menos ainda um “cabedal de conhecimentos de um grupo social”. Parece, sim, uma ação de marketing. Um produto digital, talvez. Com persona, estratégia, lançamento. A cultura do cancelamento pegou a muitos de surpresa, como uma tendência neon imposta por figurinistas de renome após décadas de absolutismo tom-pastel. Cores berrantes agrediram os olhos, mas não encontraram qualquer empecilho para se infiltrar em acessórios e vestimentas, quando algum influente disse que assim deveria ser.

Na incessante busca por conversão, likes e fazer parte, muitos seguem o ritmo da dança das virtudes. Qualquer discurso informal deve antes obedecer a um rigoroso protocolo humanista, sendo seu orador, preferencialmente, a encarnação da excelência moral e da conduta desumanamente ilibada. O sufocamento da liberdade individual se impõe ao que se pensa, ao que se faz e ao que se fala. Embora o novo código estabeleça respeito e empatia universal, a capacidade de se colocar no lugar do outro e a tolerância às suas escolhas e especificidades só ganham utilidade e se efetivam quando da defesa de uma panelinha, de um pequeno setor no fim do corredor.

Carlinhos Maia, conterrâneo de meus ascendentes, perdeu “amigos” e patrocinadores por não beijar seu marido no altar. A presença feliz de seus pais, de sua sogra, já o fazia amado e respeitado como indivíduo, como ser humano. Não precisava cumprir um checklist midiático e forçar, goela abaixo, quem é e como vive à sociedade Penedense. Aliás, quem conhece Penedo, sabe. Eu, por exemplo, aos treze anos, caí na besteira de ir à festa de Natal na casa de minha avó, Dona Glorinha, aderindo às tendências da época e exibindo impudicamente meu umbigo. Levei uma chamada desconcertante na frente da família inteira. Nunca mais me meti a besta. Carlinhos, nitidamente mais corajoso que eu, acabou virtualmente linchado. Não porque levou ao altar outro homem à vista de tantas Glorinhas. Mas porque as autoridades do politicamente correto não acharam suficiente todos os holofotes direcionados ao interior de Alagoas, não se contentaram com tantos senhores e senhoras de outros tempos, de outra geração, genuinamente alegres pela felicidade do vizinho, do conhecido, do amigo Carlinhos. Não acharam bastante sua liberdade de ser. Não examinaram nem por um minuto o cenário, a história, a conjuntura local. Quantos não se beneficiarão da trilha aberta a picadas por Carlinhos? O alto comando discorda – pela superioridade moral que diz possuir, só um beijo lascivo atenderia às demandas de quem se diz par.

Gabriela Pugliesi, profissional na arte de pisar em ovos, em usar as palavras certas para agradar a gregos e troianos, divulgadora do bem, da alimentação do bem e da conduta do bem, não foi por menos levada à forca virtual. Decidiu, no auge da pandemia, se aglomerar a meia dúzia de amigas em casa. Todas adultas, em pleno gozo de suas faculdades mentais, alfabetizadas e cientes dos riscos que estariam colocando a si mesmas. Ponderaram, decidiram. Por tal decisão, foram alçadas ao nível das bruxas medievais e queimadas vivas, como os detentores do certo, do digno, do honroso entenderam que deveriam ser. Gabriela pediu desculpas, encerrou sua conta no Instagram e após longo período offline, retornou pedindo clemência por um sem número de vezes.

Dizem por aí que estamos a caminho do progresso, da evolução. Leis, códigos e a mão pesada do Estado intervêm em muito mais do que deveriam, impondo limites ao nosso desejo, mas, principalmente, à nossa ação. Construímos um monumental arcabouço punitivo para as condutas humanas mais execráveis e, mesmo para elas, já se defere o direito ao esquecimento – para que, após o pagamento da pena, cada um toque sua vida, novamente, como quiser. A muitos, não se exige nem isso. Porque, a despeito do invólucro nobre de muitas das exigências da moda, os valores mais elevados e férteis ao surgimento de civilizações que se prezem minimamente não parecem despertar qualquer interesse ou mania coletiva. Honestidade é um exemplo – jamais ganha as passarelas.

Na contramão do real progresso, parimos, nutrimos e vemos crescer uma nova geração de futriqueiros, curiosos na janela, ociosos na calçada. Fiscais e fixados à vida alheia. Caga-regras num bizarro tribunal de exceção. Umas pragas infestadas em todo canto. Não em Penedo, como pude ver no último verão. Lá, parecem todos ocupados em manter o trabalho em dia, a casa limpa, a cama arrumada. Como Dona Glorinha, não perdem tempo com o mundo extra-muros. Quem quiser que ponha seus umbigos à mostra, que case, descase, que se aglomere. Que siga a tendência que melhor lhe aprouver. Mas, lá fora. Não na casa dela.

ESPECIALISTAS DE QUITANDA

Quando meu filho nasceu, escrevi um microtexto, ainda sob os efeitos da anestesia. Nele, expus todo o meu esforço em controlar minha gravidez, meu parto. Nada saiu conforme o planejado e, inicialmente, bem inicialmente, senti-me injustiçada. Se eu tinha seguido todo o protocolo, cumprido todos os requisitos, obedecido a todas as regras, por que as coisas teimavam em caminhar por suas próprias pernas?

Naquele momento, dei-me conta de que justiça é um conceito puramente humano e isto foi escrito no tal microtexto com as mesmíssimas palavras. Somos ensinados, desde a mais tenra idade, ser tudo possível, bastando querer. Ser tudo alcançável, bastando seguir as instruções. Sermos todos vencedores em potencial, bastando persistir. De antemão, peço desculpas pelo spoiler a quem ainda não saiu desse estágio de dormência e apresento o que está por trás das cortinas: isso é uma grande mentira. O pódio não está à disposição de todos, só há ouro para um.

Acredito piamente no poder da resistência e do enfrentamento, na força de um desejo legítimo como motivadores e combustíveis do êxito. Certamente, quem segue a cartilha e não desiste com facilidade tem mais chances de vencer do que quem se entrega ao acaso. Certamente, também, as oportunidades, quando apresentadas a quem se prepara cuidadosamente para elas, têm mais chances de vingar do que quando se apresentam a negligentes e distraídos. Ainda assim, não há garantias.

O que vejo comumente, porém, é uma infinidade de especialistas de quitanda que se valem de conceitos como técnica e método científico, geralmente, por meio de um discurso bastante assertivo, vendendo certezas, caminhos fáceis, certos e seguros, passo-a-passo de chavões e outras cafonices. Uma turminha de gurus que não expõe em suas vitrines ciência, valores morais ou artísticos, mas tem na exibição de um suposto ganho financeiro próprio a isca para atrair um cardume de ingênuos.

Não vou mentir. Já caí nessa arapuca. Perdida, sem saber que rumo tomar, qual alternativa escolher, atendi ao meu lado crédulo, ao meu lado precário e me matriculei em um desses cursos on-line que prometem a felicidade plena, a riqueza e a glória para todo o sempre – e em três simples passos. A página inicial do curso oferecia um sem número de aulas. Todas intituladas de modo a atrair tolos mesmo. Cada aula se ligava a uma outra seguinte, onde supostamente estaria a resposta que eu buscava. Meu lado cético suspirava a todo instante: farsa! Mesmo assim, segui adiante. Tinha direito a sete dias de acesso gratuito e pretendia, nesse período, confirmar haver ali ou não a revelação do segredo.

Levei dois dias para solicitar o cancelamento de minha matrícula. Levei dois dias para cair em mim e perceber que a solução rápida e indolor que eu procurava não estava ali – e nem em qualquer outro lugar. Levei dois dias para atentar que certo mesmo está Jordan Peterson, quando afirma: “life is suffering“. Porque sofrer é mesmo inerente à vida. É um de seus elementos formativos. Resulta do choque constante entre desejo, ação, habilidade e possibilidade – variáveis personalíssimas que se atraem e se repelem em graduações demarcadas pelas circunstâncias do freguês. E não há alternativa. Não há porta de saída. Mesmo os que podem e ousam viver mimando a si próprios se sujeitam à dor. Mesmo os que podem e ousam atender a todo e qualquer desejo se sujeitam à dor. Talvez porque os recortes de prazer e felicidade que experimentamos sugiram a existência de um todo constante e sólido atingível e nos motivem a levantar da cama e nos manter em pé – embora não haja relatos autênticos ou evidências que a comprovem. A venda de práticas que ajudem a lidar e a conviver com as próprias frustrações, inclusive esta, não só é aceitável, como deve ser estimulada. A promessa e venda de caminhos livres de dor, merecimentos sem a imputação de forças físicas, morais e intelectuais intensas é desonestidade na sua forma mais descarada. Por isso, levar dois dias para me dar conta do óbvio, levar dois dias para me dar conta de que a vida não é justa, fácil ou indolor não me orgulha, ao contrário, me cobre de vergonha.

OLHOS IMPRÓPRIOS

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Photo by Sean Benesh on Unsplash

Quando eu era criança, uma dúvida sempre me acompanhava: será que o que via era o mesmo que todo mundo via? Será que uma mesma laranja poderia ser diferente para mim e para outra pessoa?

Dia desses, experimentei me ver por olhos impróprios.

Primeiro, quem me descrevia destacou dois ou três fatos sobre mim que, antes, não me pareciam visíveis a olho nu. Mas fatos são fatos. Denotam. Têm relação direta entre significado e objeto. E, por serem fatos, não me chegaram como elogio ou afago, embora acredite que essa talvez tenha sido a intenção. Depois, trouxe à mesa uma série de afirmações a meu respeito com base em evidências de ouvir-dizer, opiniões que não se fundam em provas e uma dose generosa de afronta.

Escutei tudo curiosa e pacientemente. Aquele espelho, entretanto, não parecia refletir uma imagem familiar. Não revelava meu invencível lado B, menos ainda meu lado A. Ao contrário, estampava recortes anaglíficos do locutor. Da sua constituição demasiadamente crédula, demasiadamente sugestionável. E, embora seu tom insinuasse certa autoridade àquele vômito de ultrajes, uma porção desmedida de sua ingenuidade saltava aos olhos.

Mas, como Alexandre, de Graciliano, tenho os olhos virados para dentro e, após alguns minutos de conversa, dei início a uma expedição em direção ao que tenho de mais profundo e entranhado. Revirei vísceras, coletei miudezas, escavei e aspirei todo e qualquer achado. Não intentei, com isso, rebater o locutor com críticas pessoais. Não cogitei desrespeitar ou desautorizar seu testemunho, embora não relutasse à falibilidade humana. Pretendi apenas encontrar restos fossilizados que comprovassem a existência do que estava sendo dito. E só então, com evidências em mãos, formar uma opinião.

Apesar de comoventes, e aparentemente sinceras, nada ali demonstrava serem aquelas alegações reais e autênticas. Não havia qualquer sinal de vida, atual ou pretérita, que as validasse. O que originou aquela criação então? O que adubou e fertilizou aquela narrativa imaginária? Quanto tempo foi empregado até que ela germinasse, florescesse e frutificasse em tão elevado grau de sofisticação? O que havia de inebriante em evadir-se  da realidade para depreciar e propagar invencionices de quem nada lhe fez e nada lhe deve? O que há na mera existência de alguns que ofende tanto?

O que ouvi importunou meus ouvidos como um discurso em português ruim. Entendi a mensagem, embora tenha refeito mentalmente a sua melhor transmissão. E, em meio a tal revisão textual, voltei à infância. Questionei meus sentidos, duvidei de percepções universais. Conclui que, sim, eu vejo o que todo mundo vê. Laranja, para mim, é a mesmíssima coisa para você. Se chove, vemos nuvens escuras e água caindo do céu. Encharcamos o corpo, as roupas e o cabelo se a ela expostos. A opinião que formamos  a partir de sua ocorrência é que se singulariza e distingue. Mas ela não descaracteriza a chuva, não altera seu conceito, seu modo ou sua forma. Não a transforma em algo diverso a depender do nosso humor ou das vantagens que a negação de seu valor absoluto ofereça.

Não, não havia verdades ali. Ainda assim, não achei que precisasse de defesa. Saí dali com um café para levar e a sensação reconfortante de que a verdade simplesmente é, mesmo que não se busque por ela, mesmo que traga com suas revelações a frustração de um final infeliz. Todos podem buscá-la, confrontá-la, difundi-la. Todos, também, podem se opor a evidências, ofuscar a própria razão. Não se recomenda, mas também não se proíbe, idiotizar-se. E se assim alguém decide viver, o que se há de fazer?

ATA CONDOMINIAL

Esses dias participei pela primeira vez da reunião de condomínio. Moro no mesmo edifício desde meus seis anos, mas só aos 38 decidi participar.

A assembleia havia sido convocada para prestação de contas, eleição de síndico e o que mais ocorresse. O presidente da mesa sugeriu a alteração da ordem da pauta, a fim de que todos se sentissem confortáveis em votar determinados assuntos, antes da eleição. Todos acataram. Dois condôminos estavam claramente em clima de guerra. Para cada duas palavras proferidas pelo síndico anterior, dez contestações raivosas eram apresentadas pelos dois. Fizeram sugestões inviáveis. Não pensei muito e pedi a palavra. Refutei o que havia sido dito, fiz duas sugestões. Ambas foram acolhidas por unanimidade. Na eleição, os condôminos sedentos por mudança sugeriram que outro condômino se candidatasse em oposição à reeleição do síndico. Eu votei pela reeleição. Eu, minha vizinha de porta, minha vizinha de cima, um senhor do 3º andar e o próprio síndico, claro. Perdemos. Ao final, dois senhores da oposição, veteranos aqui, me viram crescer e brincar com seus filhos na infância, perguntaram se eu não tinha interesse em participar do conselho fiscal. Agradeci, mas recusei. Insistiram, então, para que eu reformulasse a convenção de condomínio e a atualizasse segundo o já não tão novo Código Civil. Aceitei com prazer. Cumprimentei os eleitos, agradeci e elogiei o trabalho do síndico anterior. Chamei o elevador e, mesmo diante do espelho, não lembrei ser mulher. Aliás, outro dia, um integrante da escória afirmou que não basta ter uma vagina para ser digna de direitos. A minha não foi sequer considerada quando de minha participação na reunião de condomínio. Não fui interrompida, minha fala foi ouvida integralmente, ninguém tentou me explicar algo que eu já soubesse ou menosprezar o que eu tinha para dizer.

Ao entrar em casa, meu marido tentava colocar nosso filho pra dormir. Fui à cozinha da forma mais silenciosa que consegui e abri um vinho. Minutos depois, ele se juntou a mim, ouviu a minha história e respondeu: “ainda bem que você foi”. E só ali, no acolhimento do seu colo, lembrei ser mulher.

*Publicado originalmente na minha conta do Instagram em 12 de fevereiro de 2020.