Sobre gelo, uísque e relações de trabalho.

Neil deGrasse Tyson, astrofísico e divulgador científico que gosto muito, disse que “o poder e a beleza das leis físicas é que elas se aplicam em todos os lugares, quer você escolha acreditar nelas ou não. Em outras palavras, depois das leis da física, todo o resto é opinião.”

Quando colocamos gelo numa bebida em temperatura ambiente, o gelo derrete e a bebida resfria até que ambos entrem em equilíbrio térmico. Essa é a base da Lei Zero da Termodinâmica. Um mecanismo de autorregulação natural que visa a conservação da energia, impõe-se a tudo e a todos e sem o qual a Terra seria “um lugar de extremos inabitáveis”.

Comércio, mercado e relações de trabalho parecem obedecer à Lei Zero, pois possuem uma tendência natural de autorregulação. Estão sempre buscando o “equilíbrio térmico” entre a oferta e a procura. No caso do mercado de trabalho, muita procura por profissionais qualificados e pouca oferta resultam em aumento de salários. Inversamente, um número maior de profissionais disponíveis para um mercado que não necessita de tantos já força a queda da remuneração e a barganha para a contratação de quem faz mais por menos.

Ou seja, embora exista uma necessidade operacional de força de trabalho de um lado, do outro há milhares de pessoas tentando construir uma vida minimamente digna para si e para suas famílias e, em algum ponto, como em qualquer dinâmica de oferta e demanda, alguém terá que ceder para que o sistema continue “habitável” e funcionando.

Talvez por isso exista uma discussão legítima sobre até onde deveria ir a intervenção estatal nesse tipo de relação. Porque existe uma diferença entre proteger direitos fundamentais e tentar regular, de maneira simplificada, relações humanas e econômicas extremamente complexas – especialmente quando temas estruturais acabam reduzidos a slogans atraentes e soluções eleitoreiras.

A promessa simbólica de aumento do descanso remunerado produz aplauso imediato. Mas os bastidores econômicos raramente são simples, porque reduzir oficialmente uma escala não significa, necessariamente, aumentar qualidade de vida. Talvez isso signifique o deslocamento do custo para a parte mais vulnerável da cadeia, com mais sobrecarga, menos contratação, mais informalidade e menor circulação de renda rastreável. Porque a conta sempre fecha em algum lugar.

Há um outro ponto pouco discutido: a não incidência do controle de horas para quem possui ensino superior e ganha mais que 21k. Reconhece-se com isso que ganhos maiores exigem maior qualificação e menor rigidez sobre o tempo e a própria jornada? Talvez isso exponha algo que raramente se admite com honestidade.

Migremos todos para o empreendedorismo então. Mas qual empreendedor realmente trabalha pouco? Qual autônomo consegue, verdadeiramente, ganhar mais, trabalhar menos e usufruir plena e livremente dos prazeres da vida? Os poucos que chegaram a esse ponto normalmente atravessaram anos — às vezes décadas — de risco, instabilidade, renúncia e desgaste físico e emocional.

A romantização da liberdade raramente mostra o preço operacional dela. Quase ninguém quer discutir o custo real das escolhas econômicas para empresas, para trabalhadores ou para quem empreende tentando apenas sobreviver. O palanque está cheio de retórica e alternativas apelativas sem alicerce ético e econômico que as sustente, mas o mercado encontrará um meio de compensação. Assim como o gelo e o uísque cedem entre si até encontrarem equilíbrio, mercados também reagem a interferências externas tentando criar formas de estabilidade, manutenção e sobrevivência. E isso não é uma opinião.