O valor do que não acontece

Ninguém é insubstituível. Essa é uma máxima quase inquestionável, que hoje ouso flexibilizar.

No ambiente corporativo, ela é bastante difundida e constantemente repetida, porque é sempre bom lembrar que empresas continuam existindo após aposentadorias, demissões, desligamentos e mudanças de gestão. A operação segue. Novas pessoas chegam. A estrutura se acomoda e se reorganiza.

Algumas ausências, no entanto, parecem produzir efeitos desproporcionais e ser mais sentidas do que outras, quase provando por A + B que há quem seja insubstituível, sim.

Destaco aqui aqueles profissionais cuja presença produz pouco ou quase nenhum ruído, cuja importância raramente aparece nos relatórios de desempenho, mas se revela rapidamente quando precisam se afastar: o gestor que conecta áreas sem alarde; o colaborador que conhece os detalhes e detém a memória da operação; a pessoa que resolve conflitos antes que eles cresçam. Aqueles que preservam relacionamentos, compartilham contexto e impedem que pequenos problemas se transformem em grandes crises.

Enquanto presentes, tudo parece funcionar. As informações existem, os processos acontecem e as pessoas sabem para quem perguntar. Enquanto estão lá, ninguém percebe quantas decisões passam por eles, quantos conflitos eles resolvem, quantos problemas eles impedem que cresçam e cheguem adiante.

Por isso, muitas vezes, seu valor passa despercebido. Afinal, é difícil notar aquilo que funciona ou medir aquilo que não aconteceu. Ninguém elogia diariamente a ponte que se mantém de pé, mas todo mundo vê quando ela cai.

Quando a operação segue redonda, não aparece no indicador o conflito que foi evitado, a negociação que não se deteriorou, a paralisação que não ocorreu ou a decisão equivocada que deixou de ser tomada porque alguém percebeu o risco a tempo.

Mas algumas organizações só descobrem que a ponte, senão caiu, poderá cair a qualquer momento, quando esses profissionais saem de cena. Ou quando adoecem. Ou quando tiram férias. Ou quando, por qualquer razão, deixam de estar permanentemente disponíveis.

É aí que surge uma contradição interessante: embora ninguém seja insubstituível, algumas pessoas simplesmente não podem se ausentar. Não podem desligar o celular nas férias. Não podem perder um familiar. Não podem descansar sem que parte da operação sinta imediatamente sua falta.

Embora isso revele uma falha da organização em transformar conhecimento individual em estrutura, passando a depender de pessoas, quando deveria depender de processos, o silêncio de um trabalho eficiente leva à crença de que ele é dispensável – até o dia em que ele desaparece.

Enquanto tudo funciona, não há conflito, não há paralisação, não há crise. E, aparentemente, não há também percepção de valor. Porque o que gera receita, reduz custos ou aumenta produtividade tem valor mensurável e visível em relatórios. Já o valor do que mitiga riscos, preserva relacionamentos e evita perdas futuras só aparece na ausência dos problemas que nunca chegaram a acontecer.

Não posso afirmar que a maturidade de uma empresa pode ser medida pela sua capacidade de resolver problemas quando estes surgem. Mas, certamente, um dos seus indicadores está na capacidade de reconhecer valor antes da perda, de identificar e preservar pessoas, processos e mecanismos que silenciosamente impedem que tais problemas aconteçam.

Ninguém é insubstituível, como se sabe. Mas algumas ausências nos obrigam a admitir que perdemos tempo demais sem perceber o valor de determinadas presenças.

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