Do lado de cá do mundo, este talvez seja o tempo em que ao maior número de pessoas é dado o direito de experimentar a liberdade. Há muitos embaraços ainda, muitos entraves, mas é possível escolher entre um número muito maior de opções hoje do que nos anos 20, por exemplo.
A internet, que para meu filho de 5 anos compõe o universo físico assim como o ar, o fogo, a água e a terra, possibilitou a confluência incomum de amores, o avizinhamento de distâncias, o nascimento de profissões que em nada se assemelham à clássica trindade, Medicina-Engenharia-Direito, e a compressão da arte e do conhecimento humano em dispositivos móveis.
Se o conhecimento liberta, como disse alguém, carregar enciclopédias, museus, jornais e todo o somatório do que se conhece no bolso dá voz de mando – se escolhermos usá-los, logicamente. Porque até para isso, somos livres. Podemos selecionar todas as possibilidades, parte delas, mas também nenhuma. E nem os trabalhos publicitários mais sedutores nos convencem do contrário.
Ao que parece, no entanto, há muitas amarras não visíveis a olho nu. Mesmo podendo acessar o que acrescenta, o que agrada, o que contenta, opta-se por aquilo que aborrece e não satisfaz. A mim, essa incoerência causa estranheza. Acho esquisitíssimo que alguém, ante um sem número de alternativas, escolha conscientemente a que lhe faz mal. Ante uma lista aparentemente extensa do que julga bom, nobre e digno, escolha justamente o que lhe permite escrever o maior número de críticas. Ante o gigantesco leque de oportunidades para crescer, criar, construir, decida pela pura, simples e rasa crítica. Talvez seja aí onde a chave gire. Na crítica como um fim em si.
Isto porque, mesmo livre, muito mais livre que nos anos 20, uma tropa de vigilantes marcha na estrada do menosprezo e da depreciação. Uma horda errante busca a valia existente na coragem e na loucura alheia. Vê, na ronda, uma cara forma de entretenimento. Zela, dia e noite, pelo respeito a uma bula imaginada, sem atentar que a linha de chegada está logo ali. Descambando numa acumulação de águas. Premiando quem procura um refresco com o reflexo de sua real amarra, a própria covardia.
